{"id":1731,"date":"2022-08-12T20:40:27","date_gmt":"2022-08-12T23:40:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2022\/?p=1731"},"modified":"2022-08-16T14:51:25","modified_gmt":"2022-08-16T17:51:25","slug":"mes-da-juventude-para-igor-ser-jovem-preta-da-periferia-e-construir-novas-possibilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2024\/novidades\/mes-da-juventude-para-igor-ser-jovem-preta-da-periferia-e-construir-novas-possibilidade\/","title":{"rendered":"M\u00eas da Juventude: Para Igor, ser jovem preta da periferia \u00e9 construir novas possibilidade"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">por <strong>Paulo Pastore<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Do sonho de seguir vivo ao sonho de dar um carro jipe para sua m\u00e3e. No M\u00eas da Juventude,o Est\u00e9ticas das Periferias conversou com Igor Nogueira, jovem negra de 27 anos, nascida na favela de Heli\u00f3polis. Na entrevista, ela conta um pouco da sua trajet\u00f3ria de vida, qual o lugar do jovem dentro da sociedade e como a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica chegou em sua vida.<span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Ser uma jovem negra perif\u00e9rica, na maior cidade do pa\u00eds, \u00e9 tentar equilibrar uma realidade que lhe apresenta diversos s\u00edmbolos e exemplos de resist\u00eancia, de supera\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que aparentemente n\u00e3o existem alternativas para um futuro melhor. \u201cN\u00e3o \u00e9 exagero dizer que, por ter me uma forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, ser uma gay preta que cresceu na favela, com 27 completos, eu contrariei as estat\u00edsticas&#8221;.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Tendo sido pr\u00f3xima do MPL (Movimento Passe Livre), jogadora de futebol do \u201cCorote Molotov\u201d &#8211; time de v\u00e1rzea de moradores de rua &#8211; e integrante da Perifacon, Igor conta que n\u00e3o teve que a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas que, naturalmente, percebeu-se agindo e se organizando de repente, politicamente, sendo algo que \u201cfazia muito sentido para mim\u201d.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><strong>O que \u00e9 ser uma &#8220;jovem preta perif\u00e9rica&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 viver em um mundo de incertezas, que se mistura aos v\u00e1rios s\u00edmbolos de resist\u00eancia, de for\u00e7a, de luta presentes na sua fam\u00edlia e na sua quebrada. \u00c9 um mundo que, muitas vezes, se apresenta sem oportunidades, sem perspectivas e refer\u00eancias de vit\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p><strong>Agosto \u00e9 conhecido como o \u201cm\u00eas da juventude\u201d. Qual o lugar ou espa\u00e7o da juventude na organiza\u00e7\u00e3o da sociedade hoje?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A juventude est\u00e1 no lugar de cria\u00e7\u00e3o de novas possibilidades, para os seus e para si mesma, para o local de onde ela veio. A cria\u00e7\u00e3o de um coletivo cada vez mais forte, capaz de, principalmente, fazer das dificuldades e da falta de oportunidade, a sua motiva\u00e7\u00e3o para seguir em frente,\u00a0 construir novas hist\u00f3rias, novas narrativas e contrariar aquilo que o sistema n\u00e3o quer que voc\u00ea alcance.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea se define pol\u00edticamente? <\/strong><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Eu acho muito dif\u00edcil me definir dessa forma, mas quando eu penso em responder a esta pergunta, eu gosto muito de um termo da Linn da Quebrada que \u00e9 se apresenta com uma \u201cagitadora cultural\u201d, eu acho que sou isso, uma agente de transforma\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Conte um pouco da sua trajet\u00f3ria:<br \/>\n<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Tenho 27 anos, nasci na favela do Heli\u00f3polis. Cresci com a minha m\u00e3e e com meu irm\u00e3o. Em um per\u00eddo, ap\u00f3s um inc\u00eandio, a gente perdeu o nosso barrac\u00e3o, e moramos na rua mesmo. Depois voltamos para zona norte, morando de favor na casa de uma tia, e fomos construindo nossa vida. Minha fam\u00edlia morou no Jardim Brasil, no Ja\u00e7an\u00e3 sempre na zona Norte. Na minha vida adulta, gra\u00e7as ao meu trabalho, eu consegui ir explorando a cidade, morando no centro, em v\u00e1rios bairros. Atualmente estou de volta para a zona norte, mais pr\u00f3ximo da minha fam\u00edlia.<\/span><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea participou do MPL, da Perifacon. Como surgiu ou que motivou voc\u00ea a participa de movimentos e coletivos? E quais as import\u00e2ncias deles na sua trajet\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu nunca participei do Movimento Passe Livre diretamente, mas eu acompanhei a trajet\u00f3ria do movimento, ia aos atos, era pr\u00f3ximo. Uma das minhas primeiras atua\u00e7\u00f5es pol\u00edticas mais diretas foi no time de futebol \u201cCorote Molotov\u201d, que \u00e9 formado por moradores da ocupa\u00e7\u00e3o Alc\u00e2ntara Machado, no bairro do Br\u00e1s. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">A minha aproxima\u00e7\u00e3o com coletivos e movimentos pol\u00edtico foi, para mim, um caminho muito natural para quem vem da periferia, com corpo que eu tenho, com a minha orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Meus caminhos foram me levando para estar na luta, n\u00e3o foi algo que eu busquei, que eu decidi ir atr\u00e1s. O que \u00e9 mais significativo deste processo, \u00e9 saber que voc\u00ea t\u00eam outros iguais, que est\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o de futuro juntes, buscando um lugar melhor para quem vem depois da gente.<\/span><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 muito ligado ao universo da \u201ccultura geek\u201d. Este \u00e9 um ambiente que reproduz os padr\u00f5es de uma sociedade heteronormativa ou as quest\u00f5es de g\u00eanero, de ra\u00e7a, identidade sexual tem maior espa\u00e7o?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A cultura geek \u00e9 uma ind\u00fastria, \u00e9 ineg\u00e1vel que ela reproduz os padr\u00f5es da heteronormatividade, da branquitude, da burguesia, assim como qualquer outra ind\u00fastria. Por isso, a periferia, as pessoas negras, grupos \u2018minorit\u00e1rios\u2019 n\u00e3o s\u00f3 vistos como potenciais consumidores dessa cultura. Nisso, um evento como a \u201cPerifacon\u201d,\u00a0 por exemplo, vem muito dessa contram\u00e3o, desses padr\u00f5es. A gente sempre pensa a produ\u00e7\u00e3o do evento, a o p\u00fablico participante, a galera que vai trabalhar na organiza\u00e7\u00e3o, pensando em como mudar um pouco essa narrativa. Ent\u00e3o buscamos profissionais de periferia, os profissionais que estejam dentro de um aspecto da diversidade como um todo.<\/span><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que \u00e9 exagero dizer que &#8220;todo jovem negro que envelhece, contrariou as estat\u00edsticas&#8221;?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu n\u00e3o acho que seja um exagero, at\u00e9 porque quando a gente est\u00e1 falando de perspectiva de vida, n\u00f3s estamos falando de dados. Eu, por exemplo, me vejo contrariando as estat\u00edsticas, eu n\u00e3o tenho exemplos da minha fam\u00edlia de pessoas que se formaram. Hoje, eu consigo me sustentar, tenho diversas experi\u00eancias profissionais,\u00a0 que, normalmente, n\u00e3o s\u00e3o acess\u00edveis para pessoas como eu. Acredito que, a minha exist\u00eancia e minha trajet\u00f3ria contraria diversas estat\u00edsticas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>Quais seus sonhos ou projetos de futuro?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tem muita dificuldade de responder essa pergunta, mas a primeira coisa que vem a cabe\u00e7a para responder isso, que \u00e9 uma meta que tenho h\u00e1 muito tempo, \u00e9 devolver para minha m\u00e3e tudo que ela j\u00e1 fez por mim. Um dos maiores sonhos dela, algo que ela sempre fala, \u00e9 do desejo de ter um jipe. Esse \u00e9 meu sonho hoje, dar um jipe para minha m\u00e3e, dos meus sonhos, do meu projeto, o que significa mais para mim hoje \u00e9 isso.\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Paulo Pastore Do sonho de seguir vivo ao sonho de dar um carro jipe para sua m\u00e3e. No M\u00eas da Juventude,o Est\u00e9ticas das Periferias conversou com Igor Nogueira, jovem negra de 27 anos, nascida na favela de Heli\u00f3polis. 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