{"id":1699,"date":"2022-07-25T19:52:12","date_gmt":"2022-07-25T22:52:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2022\/?p=1699"},"modified":"2022-07-25T21:06:23","modified_gmt":"2022-07-26T00:06:23","slug":"pedagogias-das-travestilidades-obra-resgata-historico-e-ferramentas-pedagogicas-do-movimento-de-travestis-e-mulheres-transexuais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2024\/novidades\/pedagogias-das-travestilidades-obra-resgata-historico-e-ferramentas-pedagogicas-do-movimento-de-travestis-e-mulheres-transexuais\/","title":{"rendered":"Pedagogias das Travestilidades: Obra resgata hist\u00f3rico e ferramentas pedag\u00f3gicas do movimento de travestis e mulheres transexuais"},"content":{"rendered":"<p>A mesma cidade natal. Passagem pela Universidade Federal de Pernambuco. A escolha na Pedagogia como ferramenta e combate a opress\u00e3o. Essas s\u00e3o algumas das semelhan\u00e7as entre Maria Clara, autora de \u201cPedagogias das Travestilidades\u201d, e o patrono da educa\u00e7\u00e3o brasileira, Paulo Freire. Ser uma travesti, que organiza sua produ\u00e7\u00e3o intelectual a partir da sua identidade revela a import\u00e2ncia desta obra.<\/p>\n<p>Nesta conversa com o Est\u00e9ticas das Periferias, Maria fala do seu percurso intelectual, do\u00a0 processo de afirma\u00e7\u00e3o de identidade de travesti e tamb\u00e9m do porqu\u00ea \u00e9 no feminismo negro que a luta das mulheres trans e travestis encontra acolhimento e di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Sobre o seu livro, ainda em fase de pr\u00e9-lan\u00e7amento, Maria conta que \u00e9 resultado do seu trabalho de conclus\u00e3o de curso, a forma\u00e7\u00e3o no curso de pedagogia iniciado na UFPE &#8211; quando foi a primeira travesti da hist\u00f3ria do curso &#8211; e conclu\u00eddo na PUC-SP.<\/p>\n<p>\u201cEu sei que n\u00e3o \u00e9 comum um TCC ser publicado na forma de um livro, ainda mais em uma editora do porte da \u2018Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira\u2019. Mas sei do potencial desta obra, do qu\u00e3o significativo \u00e9 a pedagogia vivida dentro do movimento trans ao longo da hist\u00f3ria, e \u00e9 sobre isso que esse meu livro fala. E essa hist\u00f3ria precisa ser contada e lida\u201d, declara.<\/p>\n<p><strong>Come\u00e7ou com um manifesto<\/strong><\/p>\n<p>Quando prestou o Enem, em 2014, foi a primeira edi\u00e7\u00e3o que pessoas trans e travestis tiveram o direito de usar o nome social na inscri\u00e7\u00e3o. Ao se matricular no curso de pedagogia na UFPE, teve duas not\u00edcias: seria a primeira aluna trans na hist\u00f3ria do curso e que n\u00e3o era garantido, pela universidade, o direito de usar seu nome social.<\/p>\n<p>\u201cA minha resposta foi escrever um manifesto que publiquei no facebook. A repercuss\u00e3o foi muito grande, o que fez com que portas fossem abertas, iniciou-se diversas discuss\u00f5es sobre o uso do nome social nas universidades e, principalmente, uma reflex\u00e3o sobre a sub-representa\u00e7\u00e3o de pessoas trans no ensino superior\u201d,<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com o pensamento de Paulo Freire deu-se logo no primeiro semestre, em uma disciplina chamada \u201cMovimentos sociais e pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas\u201d. Maria aponta que ter a no\u00e7\u00e3o de que movimentos constroem pedagogia, desenvolvem pr\u00e1ticas de ensino e aprendizagem foi essencial para a sua trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mesmo com a mudan\u00e7a de cidade, quando recebeu um convite para trabalhar em S\u00e3o Paulo, a proximidade com a filosofia freiriana se manteve, quando decidiu que iria concluir o curso na PUC-SP, onde, assim como na UFPE, h\u00e1 uma catedra com o nome do pedagogo.<\/p>\n<p>\u201cPedagogias das Travestilidades surge do meu interesse de pensar outras pedagogias, para al\u00e9m das desenvolvidas por Freire. A provoca\u00e7\u00e3o que eu fa\u00e7o neste livro \u00e9 no sentido do reconhecimento da exist\u00eancia da pr\u00e1tica nas pedagogias das travestilidades\u201d, observa.<\/p>\n<p>\u201cA praxis-pol\u00edtico-pedag\u00f3gica presente dentro do movimento trans foi vital para a forma\u00e7\u00e3o, para a educa\u00e7\u00e3o e o despertar pela luta de direito das pessoas trans. Por\u00e9m, um movimento que tem um hist\u00f3rico t\u00e3o longo e com tanto a ensinar, nunca teve sua hist\u00f3ria sistematizada, documentada e narrada em uma editora de grande porte. Este trabalho faz isso\u201d,<\/p>\n<p><strong>Feminismo negro<\/strong><\/p>\n<p>Maria lembra com a alegria do in\u00edcio da sua escrita acad\u00eamica, de forma regular,\u00a0 deu-se com as blogueiras negras, primeiro espa\u00e7o aonde come\u00e7ou a escrever com regularidade. A rela\u00e7\u00e3o com o feminismo negro teve como marca uma proximidade, um di\u00e1logo com o qual, conta, sempre se encontrou, sempre sentiu acolhimento.<\/p>\n<p>\u201cNaturalmente, eu fui percebendo que minhas maiores afinidades, o meu encontro pol\u00edtico e pr\u00e1tico enquanto mulher trans, em regra, dava-se com as mulheres negras, e pelo que percebo, esta \u00e9 uma experi\u00eancia que outras mulheres trans tamb\u00e9m experimentaram\u201d.<\/p>\n<p>Perguntada sobre o porque \u00e9 o feminismo negro e n\u00e3o o feminismo \u2018como um todo\u2019 que dialoga e se reconhece com as mulheres trans, ela lembra do discurso de Sojourner Truth \u201cE n\u00e3o sou uma mulher?\u201d dirigido \u00e0s mulheres brancas, da obra de L\u00e9lia Gonzalez e Concei\u00e7\u00e3o Evaristo para apontar o \u201cn\u00e3o-lugar\u201d que as mulheres negras e mulheres trans se encontram;<\/p>\n<p>\u201cA cr\u00edtica feita por Thuth no discurso &#8220;Eu n\u00e3o sou uma mulher?&#8221; tem a mesma raiz das cr\u00edticas feitas por L\u00e9lia e Concei\u00e7\u00e3o ao feminismo branco. A nega\u00e7\u00e3o da identidade, o n\u00e3o-reconhecimento foi algo que as mulheres negras enfrentam a muito tempo, por isso, entendo, que h\u00e1 tanta soliedaridade para com as mulheres trans\u201d.<\/p>\n<p><strong>Escola x pedagogia trans<\/strong><\/p>\n<p>Tendo se reconhecido como mulher trans aos 16 anos, Maria conta que quando pediu que fosse tratada pelo nome que havia escolhido para sim, na escola onde estudava, ouviu do diretor que \u201cMaria Clara n\u00e3o existe\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPrincipalmente quando comecei a estudar pedagogia, olhando essa hist\u00f3ria de negativa do meu auto-reconhecimento, aprendi o quanto pode ser falsa essa ideia t\u00e3o tradicional de que \u00a0&#8220;A escola \u00e9 o espa\u00e7o por excel\u00eancia que nos constitu\u00edmos como cidad\u00e3os&#8221;, cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Ela explica que, em muitos casos, diferentes da sua experi\u00eancia pessoal, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel contornar essa negativas, principalmente porque o processo de exclus\u00e3o e segrega\u00e7\u00e3o de pessoas trans \u00e9 algo cont\u00ednuo. \u201cOnde as pessoas trans aprendem sobre a sua cidadania? Onde conhecem os seus direitos? Como se organizam?\u201d, pergunta-se. A resposta dessas perguntas \u00e9 o resultado que d\u00e1 corpo e forma a sua obra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mesma cidade natal. Passagem pela Universidade Federal de Pernambuco. A escolha na Pedagogia como ferramenta e combate a opress\u00e3o. Essas s\u00e3o algumas das semelhan\u00e7as entre Maria Clara, autora de \u201cPedagogias das Travestilidades\u201d, e o patrono da educa\u00e7\u00e3o brasileira, Paulo Freire. 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