{"id":1519,"date":"2021-12-01T10:41:31","date_gmt":"2021-12-01T13:41:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/?p=1519"},"modified":"2021-12-01T10:41:31","modified_gmt":"2021-12-01T13:41:31","slug":"vera-eunice-carolina-de-jesus-e-uma-inspiracao-para-mulheres-negras-de-todo-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/novidades\/vera-eunice-carolina-de-jesus-e-uma-inspiracao-para-mulheres-negras-de-todo-o-mundo\/","title":{"rendered":"Vera Eunice: \u201cCarolina de Jesus \u00e9 uma inspira\u00e7\u00e3o para mulheres negras de todo o mundo\u201d"},"content":{"rendered":"<p>\u201cApoiava um caderno nas minhas costas e escrevia em cima de mim, com a luz da lamparina iluminando o quarto\u201d. Essa \u00e9 uma das lembran\u00e7as que Vera Eunice de Jesus conta sobre a sua m\u00e3e, a escritora Carolina Maria de Jesus.<\/p>\n<p>Professora de l\u00edngua portuguesa, Vera mant\u00e9m um intenso e dedicado trabalho de preserva\u00e7\u00e3o do legado de Carolina: \u201cUma mulher negra, sem estudos, favelada, que tinha tudo para n\u00e3o dar certo, mas se transformou numa inspira\u00e7\u00e3o para mulheres negras em todo mundo\u201d.<\/p>\n<p>Com o tema \u201cNovas Carolinas\u201d, a edi\u00e7\u00e3o do Est\u00e9ticas das Periferias 2021 teve uma programa\u00e7\u00e3o com destaque especial para mulheres negras perif\u00e9ricas que, assim como Carolina Maria de Jesus, produziram arte e cultura capazes de emocionar, inspirar e mudar vidas.<\/p>\n<p>Para Vera, mesmo em situa\u00e7\u00f5es adversas e, em um mundo que n\u00e3o gosta e n\u00e3o aceita pessoas negras, \u201cnovas Carolinas\u201d seguem surgindo em todos os cantos. \u201cEu participei de uma live a convite de uma aldeia ind\u00edgena, quando ouvia aquelas mulheres, algumas meninas ainda crian\u00e7as, eu enxergava minha m\u00e3e nelas. Novas Carolinas est\u00e3o surgindo a todo momento\u201d, celebra.<\/p>\n<p>Hoje aposentada, mas ainda com atividades em escolas, Vera lembra que o gosto por literatura foi um dos aprendizados que recebeu de sua m\u00e3e. A op\u00e7\u00e3o por ser tornar professora de l\u00edngua portuguesa surgiu ap\u00f3s encontrar um bilhete de sua m\u00e3e, no qual dizia que um de seus sonhos \u00e9 que ela, Vera, crescesse e se tornasse professora.<\/p>\n<p>Outro aprendizado foi, desde logo, a tomada de consci\u00eancia das dificuldades impostas a uma mulher negra nascida na periferia. Minha m\u00e3e sabia que \u201cfoi deixada de lado\u201d, que ela viveu muito tempo em ostracismo porque, para pessoas brancas e \u2018bem-nascidas\u2019, tratar uma mulher negra e favelada como uma intelectual, como algu\u00e9m genial, era muito incomodo, muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p>\u201cEu acho que o negro ainda est\u00e1 engatinhando, n\u00e3o tem o lugar que merece nessa sociedade. Mas a gente sabe disso, minha m\u00e3e sabia o porqu\u00ea n\u00e3o era bem vinda, a gente tem consci\u00eancia disso e n\u00e3o abaixamos a cabe\u00e7a n\u00e3o\u201d, conta Vera, sem resignar-se.<\/p>\n<p>Com o Centen\u00e1rio de nascimento da escritora em 2014, Vera conta que houve um grande aumento no interesse por sua m\u00e3e, por\u00e9m desde o come\u00e7o da pandemia do Covid-19,\u00a0 o interesse por Carolina tem aumentado como h\u00e1 muito tempo n\u00e3o acontecia. \u201cA mis\u00e9ria produzida pela pandemia, agravada pela forma que muitos governos agiram, tornou a obra de minha m\u00e3e ainda mais atual\u201d, observa.<\/p>\n<p>Durante um debate, ela ouviu que se, no passado, em \u201cQuarto de Despejo\u201d, Carolina procurava nos lixos ossos para conseguir carne, hoje, ela teria que ter dinheiro para compr\u00e1-los. \u201c\u00c9 preocupante que, mesmo escrita h\u00e1 mais de 60 anos, a obra de Carolina seja atual n\u00e3o s\u00f3 por causa da qualidade liter\u00e1ria, mas porque os problemas narrados l\u00e1 ainda s\u00e3o t\u00e3o reais, ainda est\u00e3o vivos\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Carolina, explica Vera, tem uma for\u00e7a inspiradora muito grande, \u201co desejo que minha m\u00e3e tinha de mudar de vida, de conseguir criar a mim e minha irm\u00e3s, de se tornar escritora, mesmo com tantas dificuldades era muito forte\u201d.<\/p>\n<p>A pot\u00eancia dessa inspira\u00e7\u00e3o faz com que Vera seja bastante requisitada para falar da obra de sua m\u00e3e. Ela se lembra de um convite para participar de um live produzida por mulheres negras na Alemanha, \u201cas hist\u00f3rias que elas contam por l\u00e1 s\u00e3o bastante tristes tamb\u00e9m\u201d. Vera conta ainda sobre um outro grupo de mulheres nos Estados Unidos que est\u00e1 h\u00e1 mais de um ano se organizando realizar um evento com a sua presen\u00e7a: \u201cj\u00e1 fizeram rifa e at\u00e9 venderam feijoada para arrecadar dinheiro. Quando eu falei para gente mudar a visita para um conversa online, elas se recusaram. Querem que eu v\u00e1 l\u00e1 para falar de Carolina\u201d, relata.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito bonito ver esse desejo no olhar de tantas outras mulheres que \u2013 assim como minha m\u00e3e \u2013 tiveram que ouvir que n\u00e3o v\u00e3o dar certo, mas mesmo assim n\u00e3o param, insistem, continuam\u201d, explica. Para Vera, \u201cfalar sobre a hist\u00f3ria, sobre a obra da minha m\u00e3e \u00e9 ter a oportunidade de inspirar essas outras mulheres\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cApoiava um caderno nas minhas costas e escrevia em cima de mim, com a luz da lamparina iluminando o quarto\u201d. Essa \u00e9 uma das lembran\u00e7as que Vera Eunice de Jesus conta sobre a sua m\u00e3e, a escritora Carolina Maria de Jesus. 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