{"id":1090,"date":"2021-10-07T15:33:02","date_gmt":"2021-10-07T18:33:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/?p=1090"},"modified":"2021-10-19T16:38:33","modified_gmt":"2021-10-19T19:38:33","slug":"eu-nao-passo-vontade-vou-la-e-faco-o-desejo-de-aprender-e-fazer-arte-constroem-a-identidade-do-multiartista-tiely","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/novidades\/eu-nao-passo-vontade-vou-la-e-faco-o-desejo-de-aprender-e-fazer-arte-constroem-a-identidade-do-multiartista-tiely\/","title":{"rendered":"\u201cEu n\u00e3o passo vontade, vou l\u00e1 e fa\u00e7o\u201d, o desejo de aprender e fazer arte constroem a identidade do \u201cmultiartista\u201d Tiely"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><strong>Nosso artista do m\u00eas de outubro, Tiely, conta as origens da multiplicidade de sua express\u00e3o art\u00edstica e a sua rela\u00e7\u00e3o de longa data com o festival Est\u00e9ticas das Periferias<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Talvez hoje seja dif\u00edcil imaginar a cena: Voc\u00ea tem alguns poemas escritos no papel e quer public\u00e1-los em alguma rede social ou deixar aquilo salvo no computador para n\u00e3o perder. S\u00f3 que, para fazer isso, voc\u00ea tem que viajar 28 km do extremo sul da Zona Leste at\u00e9 o \u00fanico lugar com acesso liberado a um computador com acesso a internet.<\/p>\n<p>Conseguiu visualizar o \u201ctrampo\u201d que seria fazer isso? Pois bem, era esse o \u201crol\u00ea\u201d que Tiely fazia para \u201cp\u00f4r para fora\u201d os versos que escrevia, usando um computador para publicar em\u00a0<em>blogs<\/em>\u00a0e redes sociais. \u201cEu acumulava um monte de coisa, escrevia v\u00e1rias paradas, juntava todos aqueles escritos e ia para A\u00e7\u00e3o Educativa, porque l\u00e1 tinha uns computadores no mezanino que ficavam conectados na internet e era s\u00f3 chegar e usar\u201d.<\/p>\n<p>Alguns dos poemas do rec\u00e9m publicado \u201cTrans Corpo \u00c9tico\u201d, livro de poesia er\u00f3tica, ganharam forma ainda nesse tempo. O livro foi lan\u00e7ado em maio de 2021, pela \u201cCiclo Cont\u00ednuo Editorial\u201d.<\/p>\n<p>Um aviso para quem estiver sentindo falta do \u201cQueen\u201d: por um op\u00e7\u00e3o art\u00edstica, \u201cTiely\u201d n\u00e3o usa mais o \u201cQueen\u201d na divulga\u00e7\u00e3o dos seus trabalhos art\u00edsticos. A mudan\u00e7a tem haver com uma ideia de \u201cum nome s\u00f3 transmite mais for\u00e7a, n\u00e3o tem nenhuma quest\u00e3o pol\u00edtica ou de g\u00eanero\u201d, explica.<\/p>\n<p><strong>Multiartista<\/strong><br \/>\nSe o lado escritor \u00e9 um de suas facetas com manifesta\u00e7\u00f5es mais recentes, \u00e9 imposs\u00edvel relacionar Tiely a uma s\u00f3 linguagem art\u00edstica. Primeiro homem trans do Hip Hop Nacional, o rol de seus trabalhos \u00e9 quase infinito. \u201cEu n\u00e3o passo vontade. Eu tenho uma ideia, um desejo de fazer algo, eu vou l\u00e1 e meto a cara, tento fazer mesmo, dar o melhor naquilo\u201d, reconhece.<\/p>\n<p>O primeiro contato \u201cmais consciente\u201d com a arte veio como resposta a uma provoca\u00e7\u00e3o na escola. Como quase todo aluno agitado, Tiely sempre estava fazendo algo, questionando, falando, sempre ativo. At\u00e9 que uma professora, meio em tom de desafio e meio desabafo, provocou: \u201cVoc\u00ea devia fazer teatro, viu? Voc\u00ea tem muita d\u00favida, muita pergunta, n\u00e3o para quieto\u201d.<\/p>\n<p>Ele conta que quando ouviu aquilo n\u00e3o deixou barato: \u201cTeatro, professora? N\u00e3o tem teatro aqui na escola, onde eu vou fazer isso?\u201d. A resposta foi a indica\u00e7\u00e3o da oficina Cultura Luiz Gonzaga, no bairro S\u00e3o Miguel Paulista.<\/p>\n<p>\u201cFoi um neg\u00f3cio muito louco ir para a oficina. Foi impressionante o quanto as aulas de teatro fizeram sentido para mim, me encontrei muito naquilo. Mas n\u00e3o fiquei s\u00f3 no teatro, praticamente todas as oficinas que apareciam eu queria fazer, queria conhecer. Ainda bem que essa professora pagou para ver\u201d.<\/p>\n<p>Sua lista de trabalhos e linguagens art\u00edsticas \u00e9 extensa e diversa, passando por Hip Hop, cinema, produ\u00e7\u00e3o, fotografia, novela \u2013 isso para ficar s\u00f3 nos principais. Para Tiely, o que une toda a sua multiplicidade\u00a0 \u00e9 o desejo de fazer algo novo, de descobrir algo e fazer aquilo bem feito. \u201cIsso faz muito parte de mim, esse desejo de meter a cara, me proponho a fazer uma parada diferente e me esfor\u00e7o o m\u00e1ximo para dar o meu melhor naquilo\u201d, descreve.<\/p>\n<p><strong>Identidade<\/strong><\/p>\n<p>Para Tiely, ser o primeiro homem trans do Hip Hop tem uma import\u00e2ncia muito mais coletiva do que individual. \u201cHoje tem aparecido mais gente, as pessoas est\u00e3o falando e posicionando, mostrando que a figura do homem n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica que existe no hip hop. N\u00e3o d\u00e1 para falar tanto que o preconceito diminuiu, mas tem mais gente na cena, isso \u00e9 importante para caramba\u201d.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7ou no Hip Hop, entre o final dos anos 80 e come\u00e7o dos 90, a caminhada come\u00e7ou na composi\u00e7\u00e3o, o passo seguinte foi come\u00e7ar a cantar e depois formar o grupo \u201cPreto Cerebral\u201d. Na \u00e9poca, ainda sem no\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria identidade de g\u00eanero, Tiely era visto como mais uma das meninas que se precisam se vestir como como homem para poder fazer parte do movimento.<\/p>\n<p>\u201cAs meninas ficavam \u2018no veneno\u2019 por serem for\u00e7adas a se vestirem assim, j\u00e1 comigo era o contr\u00e1rio. Eu me sentia muito \u00e0 vontade me vestindo como homem, mas eu n\u00e3o tinha ideia do porqu\u00ea. Diferente do que acontecia com as outras mulheres, eu n\u00e3o me sentia incomodado\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, quando veio a quest\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o sexual, quando entendeu qual era sua identidade de g\u00eanero, as coisas mudaram bastante. \u201cVeio um baque. De uma hora pra outra comecei a n\u00e3o ser mais convidado. Minha orienta\u00e7\u00e3o sexual era um inc\u00f4modo\u201d, revela.<\/p>\n<p>Nesse ponto, Tiely aponta para a contradi\u00e7\u00e3o \u2013 ainda presente \u2013 no Hip Hop. Um movimento que se constr\u00f3i em cima de uma ideia de liberdade, de luta contra opress\u00e3o e espa\u00e7o para garantir o direito de express\u00e3o, rejeita e silencia um comportamento por puro preconceito.<\/p>\n<p><strong>\u201cEst\u00e9ticas edi\u00e7\u00e3o zero\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o cultural perif\u00e9rica x cultural do centro \u00e9 um aspecto bem presente na atua\u00e7\u00e3o de Tiely enquanto produtor cultural. Atualmente \u00e9 um dos coordenadores do ponto de cultura Hip Hop Mulher e curador do Est\u00e9ticas das Periferias.<\/p>\n<p>\u201cUm dos meus primeiros contatos com produ\u00e7\u00e3o cultural foi a organiza\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o das semanas do Hip Hop na A\u00e7\u00e3o Educativa. Nesse processo, comecei a aprender o que era organizar um evento, o que tinha por tr\u00e1s, como chegar nas pessoas\u2026 como fazer um evento acontecer\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Para Tiely, o alcance e a import\u00e2ncia que a Semana do Hip Hop atingiu foram\u00a0 a inspira\u00e7\u00e3o para a cria\u00e7\u00e3o do Est\u00e9ticas das Periferias. \u201cEu gosto de dizer que fa\u00e7o parte do Est\u00e9ticas das Periferias desde a edi\u00e7\u00e3o zero\u201d.<\/p>\n<p>O desafio que o Est\u00e9ticas das Periferias assumiu, de buscar fazer um evento nas periferias de S\u00e3o Paulo, sendo a organiza\u00e7\u00e3o feita por quem est\u00e1 e vive nessas periferias e com apresenta\u00e7\u00f5es de quem est\u00e1 l\u00e1, foi uma mudan\u00e7a muito grande.<\/p>\n<p>\u201cFoi um desafio para mim tamb\u00e9m, saca? Eu tinha que chegar na minha quebrada e achar quem aqui est\u00e1 fazendo rap? Quem est\u00e1 fazendo teatro? Se a gente n\u00e3o se liga, n\u00e3o fica esperto, a gente fica s\u00f3 naquela de ir para o centro e encontrar a galera que vinha de outras quebradas. O Est\u00e9ticas se prop\u00f5e a fazer esse movimento contr\u00e1rio. Por isso que est\u00e1 a\u00ed h\u00e1 11 anos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Top-3<\/strong><\/p>\n<p>Com uma trajet\u00f3ria com tantos epis\u00f3dios marcantes, o pedido para escolher o trabalho que mais se orgulha de ter feito soa como injusto e, s\u00f3 para n\u00e3o ficar sem resposta, se transforma em um top-3.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 complicado responder isso, mas eu faria o seguinte p\u00f3dio. Em terceiro lugar, colocaria o \u201cTrans Corpo \u00c9tico\u201d porque eu nem sonhava em produzir um livro f\u00edsico e fiquei muito feliz com essa oportunidade. Em segundo foi atuar no musical \u201cRock Show\u201d, e depois de uma pausa, Tiely conclui.<\/p>\n<p>\u201cEm primeiro lugar, o que eu mais me orgulho na minha trajet\u00f3ria \u00e9 eu ter me assumido enquanto eu mesmo, de colocar a minha verdade no que fa\u00e7o, de meter a cara e fazer o que eu gosto, me sentir liberto fazendo o que eu gosto mais sendo quem eu sou.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nosso artista do m\u00eas de outubro, Tiely, conta as origens da multiplicidade de sua express\u00e3o art\u00edstica e a sua rela\u00e7\u00e3o de longa data com o festival Est\u00e9ticas das Periferias Talvez hoje seja dif\u00edcil imaginar a cena: Voc\u00ea tem alguns poemas escritos no papel e quer public\u00e1-los em alguma rede social ou deixar aquilo salvo no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1091,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3,1],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1090"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1090"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1090\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1094,"href":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1090\/revisions\/1094"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1091"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1090"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1090"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.esteticasdasperiferias.org.br\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1090"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}